O que nos torna pouco competitivos?

A dinâmica do desenvolvimento tecnológico precisa ser desburocratizada para que os impactos desejados cheguem mais rápido ao mercado e contribuam para a melhora na saúde e o aumento da expectativa e qualidade de vida do brasileiro

Lamentar a morte de mais de meio milhão de brasileiros por covid-19 é pouco. Esta é uma discussão de resposta muito clara, quase óbvia. Se tivéssemos capacidade interna, poderíamos ter suprido parte das necessidades do mercado e reduzido o impacto da pandemia no sistema de saúde em tempo hábil. O quadro de calamidade é resultado de décadas de políticas de incentivo à mera reprodução em vez de estímulo à capacitação profissional e ao domínio do processo produtivo.

Começar reproduzindo (‘copiando’) não é um problema. Basta lembrar da história do nylon, fibra têxtil sintética patenteada pela empresa norte-americana DuPont em 1935 e usada para provocar a indústria japonesa e fazê-la exportar menos seda. A resposta japonesa foi contundente e imediata: ‘copiar’ o processo de manufatura e produzir nylon 6 meses após a desfeita. Atualmente, a China domina o mercado mundial de nylon, seguida por Estados Unidos, Japão e Tigres Asiáticos. Os chineses perceberam que, na era tecnológica, “o caminho mais curto para crescer é apostar em três frentes: inovação, inovação e inovação.

Nesse contexto, pergunto: qual é o perfil da nossa indústria farmacêutica? Produzimos genéricos… até hoje. Mas a política de ‘genéricos’ tem como fragilidade o fato de incluir apenas medicamentos cujas patentes já tenham expirado. O problema do conhecimento tecnológico insuficiente e a dificuldade do nosso país em evoluir de ‘copiar’ para ‘inovar’ precisa ser tratado com prioridade e sem demagogia para romper o ciclo vicioso da dependência tecnológica e trazer um diferencial competitivo.

O projeto de cranioplastia, reparo craniano extenso, pode ilustrar tanto a inovação estimulada pela demanda como os entraves burocráticos ao desenvolvimento do produto. Pelo lado clínico, as cirurgias de reconstrução do crânio após remoção da calota craniana envolvem um alto custo, incluindo a malha de titânio e porcelanato usada atualmente, totalizando um gasto entre R$ 120 mil e R$ 200 mil por paciente, o que torna sua realização no Sistema Único de Saúde (SUS) economicamente inviável. A cranioplastia faz-se necessária não somente por razões estéticas – o que, por si só, já justificaria o procedimento –, mas também para assegurar que o cérebro do paciente fique mais protegido e com melhor irrigação sanguínea, resultando em melhoras cognitivas e comportamentais e facilitando a reintrodução do indivíduo na sociedade. No momento, infelizmente, a implantação de próteses cranianas é realizada pelo SUS somente mediante doação ou após sentença judicial, considerando que o paciente corre risco de vida.

Nossa equipe desenvolveu uma solução utilizando uma prótese de polimetilmetacrilato (PMMA) confeccionada durante o período da cirurgia, com resultados semelhantes e até superiores aos das próteses de titânio e porcelanato disponíveis, mas com custo cerca de 20 vezes menor que o praticado no mercado, tornando o tratamento, em teoria, viável e acessível à rede SUS. Estamos confiantes nos resultados das próteses feitas de PMMA, na análise dos custos e na adequabilidade do produto para o mercado.


No contexto da inovação em saúde, precisamos inserir formas de gestão flexíveis, ágeis, que envolvam tomadas de decisão descentralizadas, de modo a ampliar os espaços de criatividade e de ousadia na busca e na implementação de soluções

A ciência translacional não é algo que possa se embutir no sistema por decreto. Grandes organizações, públicas e privadas, estão amarradas nas suas próprias burocracias, o que dificulta o processo criativo e de inovação. No contexto da inovação em saúde, precisamos inserir formas de gestão flexíveis, ágeis, que envolvam tomadas de decisão descentralizadas, permitindo a responsabilização de todos os atores envolvidos, de modo a ampliar os espaços de criatividade e de ousadia na busca e na implementação de soluções. O que não dá para aceitar é continuar a andar com o ‘freio de mão puxado’ e na contramão do desenvolvimento sustentável.

Por fim, a dicotomia entre público e privado já deveria ter sido ultrapassada. A saúde é direito de todos e dever do Estado. Quem trabalha com inovação quer ver o produto funcionando no mercado global. Certa vez, em 1995, tive a oportunidade de ouvir de Eric Kandel (Universidade Columbia), Rodolfo Llinás (Universidade de Nova York) e Torsten Wiesel (Universidade Rockfeller) uma previsão sobre o cenário de concessões nos Institutos Nacionais da Saúde (NIH) em 2015-2020: “quem não desenvolvesse uma ‘pílula’ para a sociedade como resultado do seu projeto de pesquisa estaria fora do pool”. Tal visão está se tornando uma realidade global. Pessoalmente, acredito que um dos compromissos mais preciosos que temos com a nossa população é o de proporcionar hoje, e não amanhã, uma solução para que todos possam ser atendidos a tempo e desfrutem de boa qualidade de vida.

Renato Rozental
Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde,
Fundação Oswaldo Cruz e
Instituto de Ciências Biomédicas,
Universidade Federal do Rio de Janeiro

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