O que esperar do super El Niño

Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano
Rede Ressoa Oceano

O fenômeno do aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico altera o regime climático, e a previsão de sua chegada em 2026 acende o alerta de especialistas para seus potenciais efeitos devastadores

CRÉDITO: ADOBE STOCK

Ainda é cedo para confirmar a chegada de um super El Niño em 2026, mas o fenômeno pode ser um dos mais intensos da história. Apesar da incerteza, este é o momento ideal para a gestão pública começar a planejar, sem gerar pânico coletivo, mecanismos de mitigação e adaptação diante dos possíveis eventos climáticos extremos associados a esse fenômeno, como secas no Norte e chuvas intensas no Sul do Brasil.

Os impactos desses eventos não atingem todas as pessoas da mesma forma. Populações socialmente vulnerabilizadas e regiões com menor infraestrutura urbana tendem a sofrer de maneira mais intensa os efeitos de secas, enchentes, insegurança hídrica e perdas econômicas associadas ao fenômeno. Por isso, discutir mecanismos de preparação e adaptação também significa olhar para desigualdades sociais e fortalecer políticas públicas capazes de proteger os grupos mais expostos aos riscos climáticos.

O que esperar para a temporada de 2026 e 2027?

As previsões mais recentes indicam que a chegada do El Niño pode ocorrer entre a primavera de 2026 e o verão de 2027. Mas ainda não há certeza sobre a chegada de um super El Niño. Segundo estimativas, há 25% de chance de ocorrer um El Niño de forte intensidade, e outros 25% de probabilidade de um evento ainda mais intenso, conhecido como super El Niño. Essa classificação ocorre quando a variação da temperatura da superfície do mar ultrapassa 2°C acima do valor considerado normal, valor que representa uma alteração significativa quando se trata da temperatura da superfície oceânica.

Probabilidades projetadas para diferentes intensidades do El Niño no trimestre outubro-novembro-dezembro (OND).

FONTE: TRADUZIDO DE NOAA

A verdade é que ainda é cedo para afirmar com alta confiabilidade qual será a intensidade do fenômeno, e as previsões tendem a ganhar maior precisão entre um e três meses antes do evento. No entanto, como já foi dito acima, não é necessário esperar por uma confirmação definitiva para começar a planejar mecanismos de mitigação dos impactos, como políticas de apoio aos setores mais afetados e assistência às localidades já vulneráveis a eventos climáticos extremos.

O que se pode afirmar neste momento é que o El Niño não deve exercer influência significativa sobre o regime de chuvas no Brasil durante os próximos três meses, correspondentes ao trimestre maio, junho e julho. Já a tendência mais provável, segundo os modelos atuais, é a ocorrência de um dos El Niños mais intensos registrados nas últimas décadas.

O que é o fenômeno El Niño?

O oceano ocupa cerca de 70% da superfície terrestre e, por isso, sua interação com a atmosfera exerce grande influência sobre o clima global. Um dos produtos dessa interação é o fenômeno chamado El Niño Oscilação Sul (ENOS), que ocorre na porção equatorial do oceano Pacífico. Sua componente atmosférica está relacionada à dinâmica dos ventos dos Hemisférios Norte e Sul, que convergem próximos à linha do Equador e interagem diretamente com as águas do Pacífico.

Quando há um aquecimento anormal das águas superficiais, ou seja, quando os índices ultrapassam a média histórica, caracteriza-se um ano de El Niño. Já quando ocorre o inverso, com o resfriamento anormal das águas, caracteriza-se um ano de La Niña. Nem todos os anos apresentam ocorrência de El Niño ou La Niña, pois a temperatura da superfície do mar pode permanecer dentro do esperado para as médias climatológicas, condição chamada de neutralidade.

Ventos alísios enfraquecidos → aumento da temperatura da superfície da água = El Niño

Ventos alísios fortalecidos → redução da temperatura da superfície da água = La Niña

El Niño e La Niña: fases opostas do ENOS que alteram a temperatura das águas do Pacífico e influenciam o clima global.

Para identificar se será um ano de El Niño, são calculados alguns indicadores, como o Índice Oceânico Niño, que mede a temperatura da superfície do mar na região central do Pacífico Equatorial. A observação é realizada em, no mínimo, cinco períodos consecutivos de três meses. Caso a temperatura esteja 0,5°C acima da média, há tendência de El Niño; se estiver 0,5°C abaixo, a tendência é de La Niña. Essa é uma das formas utilizadas para estimar as condições do ENOS.

O que as séries históricas nos dizem

Os efeitos do fenômeno não ocorrem de maneira uniforme em todas as regiões afetadas. No Brasil, as séries históricas mostram padrões relativamente bem definidos.

El Niño

  • redução das chuvas no Norte e Nordeste;
  • aumento de secas e estiagens;
  • chuvas acima da média no Sul;
  • imprevisibilidade no Sudeste e no Centro-Oeste.

La Niña

  • aumento das chuvas no Norte e no Nordeste;
  • estiagem no Sul;
  • imprevisibilidade no Sudeste e no Centro-Oeste.

Dessa forma, atividades diretamente dependentes do clima, como agricultura e pesca, podem ser severamente impactadas durante anos de El Niño e La Niña.

Mudanças climáticas contribuem para o El Niño?

Essa pergunta tem orientado pesquisadores do mundo inteiro há algumas décadas. Mesmo não sendo simples de responder, pois depende da análise de longas séries históricas de dados climáticos, um estudo recente concluiu que as mudanças climáticas intensificaram o El Niño Oscilação Sul em cerca de 10% desde a década de 1960. Isso significa que as evidências científicas atuais indicam fortemente que os eventos de El Niño e La Niña têm se tornado mais intensos e, consequentemente, com potenciais impactos mais severos do que os registrados anteriormente.

O gráfico indica que os eventos parecem ter se tornado mais intensos ao longo das últimas décadas, mais do que necessariamente mais frequentes.

FONTE: TRADUZIDO DE NOAA

Com o aumento da emissão de gases de efeito estufa (GEE), principalmente pela queima de combustíveis fósseis e pelo desmatamento, a superfície do oceano aquece mais rapidamente. Esse aquecimento amplia a diferença entre as águas superficiais, mais quentes, e as águas profundas, naturalmente mais frias, tornando mais definidas as diferentes camadas de temperatura no oceano. Sim, o oceano possui diferentes camadas térmicas, mas isso fica para outro momento.

Como consequência, os ventos conseguem alterar a temperatura da superfície da água com mais facilidade, intensificando os eventos de El Niño e La Niña.

Curiosidade: origem do nome “El Niño”

A origem do nome é bastante curiosa. Pescadores peruanos do século 19 observaram uma corrente oceânica mais aquecida em determinados anos. Durante esses episódios de aquecimento, era comum ocorrer redução na pesca, afetando a alimentação das comunidades locais. Como o fenômeno costumava ocorrer próximo ao período do Natal, os pescadores passaram a chamá-lo de “El Niño”, expressão em espanhol que significa “O Menino”, em referência ao menino Jesus.

*A coluna Cultura Oceânica é uma parceria do Instituto Ciência Hoje com a Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano da Universidade de São Paulo e com o Projeto Ressoa Oceano, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

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