Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano, Rede Ressoa Oceano

O Dia Mundial dos Oceanos é muito mais do que uma data no calendário, é um chamado para a importância do ambiente marinho para a saúde de todo o planeta e de seus habitantes

CRÉDITO: ADOBE STOCK

Celebrado em 8 de junho, o Dia Mundial dos Oceanos nos lembra de uma verdade: o oceano não é uma paisagem distante nem um cenário reservado às regiões costeiras. Mesmo aqueles que vivem longe do litoral, que nunca sentiram a água salgada tocar a pele, são atravessados por sua influência todos os dias. O oceano produz grande parte do oxigênio que respiramos, regula o clima, participa dos ciclos da água, sustenta a vida de bilhões de pessoas em todo o planeta. Isso, por si só, já seria muito, mas não para aí…

A data foi proposta durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992, e reforça a urgência de proteger o maior sistema de suporte à vida do planeta. Sua importância pode ser resumida na fala da oceanógrafa estadunidense Sylvia Earle: “Sem azul, não há verde”. Ou seja, a saúde do planeta depende diretamente da saúde do oceano.

Mais do que um componente do sistema terrestre, o oceano é o elo que conecta ecossistemas, culturas e sociedades, ultrapassando a dimensão biológica. Os chamados “espaços azuis” desempenham papel fundamental no bem-estar físico, mental e espiritual. O mar inspira histórias, crenças, memórias e formas de pertencimento que atravessam gerações.

Quando degradamos o oceano, não afetamos apenas espécies marinhas: comprometemos relações ecológicas construídas ao longo de milhões de anos e enfraquecemos os sistemas que sustentam a vida. Por isso, romper a falsa separação entre humanidade e natureza é um dos grandes desafios do nosso tempo. Tudo o que utilizamos — os alimentos que consumimos, as fibras que vestimos, a energia que movimenta nossas cidades — tem origem em processos naturais interconectados.

Uma das maiores ameaças à biodiversidade marinha é a poluição plástica, que afeta cadeias alimentares, compromete a segurança climática e alcança, cada vez mais, a saúde humana, como mostram diversos estudos que identificaram microplásticos em tecidos humanos. Nesse contexto, iniciativas como a Voz dos Oceanos – uma expedição científica que mapeia a presença de microplásticos nos mares – simbolizam um chamado para ouvir, compreender e respeitar os limites do planeta.

Alfabetização oceânica

Por muito tempo, acreditou-se que os recursos marinhos eram inesgotáveis. Hoje sabemos que essa percepção estava equivocada. A sobrepesca, a poluição, as mudanças climáticas e a exploração desregulada dos recursos naturais revelam que a imensidão do oceano não o torna invulnerável.

Nesse cenário ganha força o conceito de alfabetização oceânica (ocean literacy), promovido pela Unesco. A proposta é simples e poderosa: compreender o oceano é o primeiro passo para protegê-lo. Uma sociedade capaz de reconhecer sua dependência dos ecossistemas marinhos e costeiros tende a tomar decisões mais conscientes e responsáveis. Essa é a visão central da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, que busca aproximar conhecimento científico e participação social.

E a relação com o oceano não se constrói apenas por meio dos dados científicos. Ela também se manifesta na cultura. Está presente nas canções de Dorival Caymmi, nos mitos e celebrações ligados a Iemanjá. O poeta Pablo Neruda escreveu: “Preciso do mar porque ele me ensina”. O oceanógrafo Jacques Cousteau observou que “o mar, uma vez que lança seu feitiço, prende-nos para sempre em sua rede de maravilhas”. Essas vozes revelam que o oceano é, simultaneamente, objeto de investigação científica, fonte de inspiração e espaço de pertencimento.

Caminhos para o futuro

O Dia Mundial dos Oceanos é um chamado à ação coletiva para compreender os impactos das atividades humanas e transformar conhecimento em atitudes concretas. Nesse processo, iniciativas de divulgação científica assumem papel estratégico. Projetos como a Rede Ressoa Oceano e o podcast “Ressoa: uma janela para o mar” aproximam ciência e sociedade por meio de uma linguagem acessível, conectando ambientes como manguezais, estuários e o mar profundo às experiências cotidianas das pessoas.

Nos últimos anos, avanços importantes demonstraram que a governança global dos oceanos está ganhando força. A entrada em vigor do Tratado do Alto Mar representa um marco histórico ao estabelecer mecanismos para a proteção de áreas localizadas além das jurisdições nacionais. O acordo cria bases para a ampliação de áreas marinhas protegidas, fortalece a avaliação de impactos ambientais e contribui para a meta global de proteger 30% dos oceanos até 2030.

Da mesma forma, o acordo da Organização Mundial do Comércio para combater subsídios à pesca ilegal e predatória sinaliza um esforço internacional para recuperar estoques pesqueiros e promover maior equilíbrio na exploração dos recursos marinhos.

A COP30, realizada no Brasil em 2025, trouxe pela primeira vez o oceano e o clima como sistemas inseparáveis, reconhecendo o oceano como aliado no enfrentamento da crise climática e reforçando a importância da conservação de manguezais, recifes e outros ecossistemas costeiros.

Apesar desses avanços, os desafios permanecem significativos. Enquanto ainda há uma escassez de mecanismos efetivos de conservação, há uma corrida crescente para exploração de minérios no fundo do mar. Os próximos anos serão decisivos para acelerar ações capazes de garantir a resiliência dos ecossistemas marinhos.

No Brasil, o fortalecimento da governança costeira, os debates sobre a Lei do Mar e a incorporação de compromissos internacionais representam oportunidades importantes para consolidar uma agenda nacional voltada à conservação e ao uso sustentável do oceano.

Interdependência

Falar sobre o oceano é falar sobre interdependência. Não basta admirar sua beleza ou contemplar sua vastidão. É preciso ouvir o que ele nos comunica por meio dos dados científicos, dos alertas climáticos e das transformações que já podem ser observadas em diferentes regiões do planeta.

Construir “o oceano que queremos” exige educação, engajamento social, políticas públicas consistentes e cooperação entre governos, cientistas, comunidades e cidadãos. Exige reconhecer que as escolhas feitas em terra firme repercutem muito além da linha da costa.

A crise climática, a elevação do nível do mar e a degradação dos ecossistemas costeiros mostram que o futuro do oceano e o futuro da humanidade são inseparáveis.

Aquela linha distante que parece separar céu e mar é, na verdade, um ponto de encontro. O oceano nos lembra que não existem fronteiras reais entre natureza e sociedade, entre o que acontece nas profundezas marinhas e o que acontece em nossas vidas.

Cuidar do oceano não é um gesto de generosidade para com a natureza. É um compromisso com o nosso próprio futuro. Afinal, enquanto houver um coração azul pulsando no planeta, haverá esperança para todas as formas de vida que dele dependem.

*A coluna Cultura Oceânica é uma parceria do Instituto Ciência Hoje com a Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano da Universidade de São Paulo e com o Projeto Ressoa Oceano, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

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